segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Miguel Torga


Ícaro

Minhas asas humanas de poeta!
Derreteu-as o sol da lucidez.
Cego, abria-as ao vento
Da inspiração
E voava.

Mas pouco a pouco,
Como quem desperta,
Dei conta da cegueira.
E fui perdendo altura.

Agora canto apenas
Ao rés-do-chão da vida,
A olhar o descampado
Do céu azul
Aberto à graça doutras emoções.

E o canto é triste assim desiludido.
Falta-lhe a perspectiva e o sentido
Que tinha quando eu tinha as ilusões.


Miguel Torga (poeta português)

3 comentários:

  1. Miguel Torga,poeta escritor terra a terra.

    Beijo.

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  2. Querida amiga, vir aqui é sempre me deparar com algo de boa qualidade, como esse poeta iluminado.

    Poesia é algo que não se compreende, apenas incorpora-se!
    Obrigada por este momento, tão real na magia do SER a perceber toda sua fragilidade humana.

    beijos e ótima semana pra ti :D

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  3. Grande Miguel Torga, uma bela postagem Mara!
    Meu carinho,
    Rosana

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